Apenas sabíamos que lá estaríamos. Nada conhecíamos um do outro, concebíamos apenas que ingressaríamos num jogo de nos reconhecermos passo a passo.
Era um espaço apinhado de gente, cada uma das pessoas movia-se para os seus afazeres, nunca prestei tanta atenção aos detalhes como naquele dia. Normalmente, nem sequer olhamos e circulamos atarefadamente. Naquele dia esmiucei todos os comportamentos das pessoas. Emoções e manifestações; visual e acessórios; gestos e olhar; tudo era investigado ao pormenor. Não sabia se eras aquele acolá ou aquele ali. Uma coisa sabia, ou residirias muito a vontade para me baralhares a descoberta ou nervoso pela situação. O mesmo aconteceria contigo. Tu eras mais comedido do que eu, isso eu tinha entendido, portanto o mais provável era eu dar mais nas vistas. Principiei a associar as tuas palavras e a tua voz à tua pessoa. Parecia que estava a construir um avatar num computador que eras tu na minha mente. Era dia de semana, por isso o mais plausível era vires vestido formalmente. Não poderias andar ligeiro senão não me descobririas. A tua idade eu sabia. Com isto consegui eliminar um grande número de homens. Não foi difícil, no meio daquela azáfama descobrir um homem mais calmo, mais atento e de roupa formal. Tinha-te descoberto, assim como tu.
São estes momentos de descoberta que nos atesta o pensamento e nos desenvolve o raciocínio. Não conseguimos deixar de pensar, analisar e deduzir. Uma excitação diferente, um jogo jogado no escuro, sem sequer sabermos quem é o adversário.
Acho que respiramos fundo e caminhamos um em direcção ao outro. Um calor circulou o meu corpo e o coração activou o seu ritmo. Só tínhamos que nos cruzar e tocar subtilmente sem que ninguém se apercebesse. À medida que adiantava no percurso e melhor alcançava a sua imagem mais excitabilidade e agitação se apoderava de mim. A pulsação cardíaca apressava à medida que se avizinhava o encontro, o suor começava a invadir a minha testa, a garganta secava e as mãos tremiam. Só pensava na forma como nos tocaríamos e o que isso provocaria. Naquele momento pretendia que o percurso fosse mais longo mas ansiava o cruzamento e o toque. Era nesse instante que poderia presenciar o seu visual, seriam escassos segundos para avaliar o olhar, os lábios e o sorriso.
Assim foi, em poucos segundos, captei o olhar engraçado o sorriso sedutor e os lábios tenuemente animados. O auge foi o toque das mãos como se alguém nos estivesse a tentar roubar algo. Se pudesse parar o momento descrevia-o como um instante arrebatado, arrepiante e muito estimulador à continuação do jogo.
Por saber que era proibido algo mais é que a adrenalina aumenta e a ansiedade cresce.
Ficamos com uma vontade louca de continuar o jogo porque sabemos que na fase seguinte haverá algo mais.
Não arranjei forma de olhar para trás, eram as regras! Não sei se ele olhou. Só sei que cinco minutos depois eu tinha uma mensagem no meu telemóvel: “Só me apetecia encostar-te à parede…e “. Eu respondi: “foder-me?
Aquela mensagem foi o catalizador para a continuação do jogo. Naquele dia não pensei em mais nada senão naquele instante captado e no suavizado toque. Cada vez que imaginava concebia a cena da mensagem, sexo. A vontade de sexo com aquele homem convertia-se numa obsessão, apenas o sexo interessava! Eu sabia que a próxima fase do jogo seria mais complexa porque o objectivo era a sedução ao som da própria musica, ainda num sítio público e sem alaridos.
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